Rota Bioceânica avança e expõe desafio de transformar conexão física em corredor logístico integrado
A Rota Bioceânica entrou em uma etapa decisiva em 2026. A ponte sobre o Rio Paraguai, entre Porto Murtinho (MS) e Carmelo Peralta, está na fase final de construção e, em setembro, o trecho brasileiro recebeu oficialmente o nome de Ponte Heitor Miranda dos Santos. A estrutura integra o corredor planejado para conectar Brasil, Paraguai, Argentina e Chile e criar uma alternativa terrestre entre o Centro-Oeste brasileiro e os portos do Pacífico.
Os efeitos dessa aproximação regional começam a aparecer antes mesmo da operação completa da rota. Entre janeiro e agosto, as transações comerciais de Campo Grande com Chile, Bolívia, Paraguai e Argentina movimentaram US$ 268,3 milhões, equivalentes a 29,09% do comércio exterior do município no período. Porto Murtinho, principal porta brasileira do corredor, recebeu aproximadamente R$ 132 milhões em investimentos estaduais em infraestrutura nos últimos quatro anos, enquanto cidades da fronteira se preparam para um crescimento da circulação de pessoas e mercadorias.
A perspectiva de alcançar o Pacífico por terra, porém, antecede em décadas as obras atuais. Registros preservados no Portal Memória do Transporte Brasileiro, iniciativa da Fundação Memória do Transporte (FuMTran) dedicada à organização e à difusão da história dos diferentes modais no país, mostram que, em 1995, o Projeto Pacífico levou uma expedição com participação do Expresso Araçatuba por mais de 5 mil quilômetros entre o Brasil e portos do Chile e do Peru. A viagem durou 24 dias, atravessou estradas majoritariamente de terra, a Cordilheira dos Andes e trechos com infraestrutura precária. Em 2000, a transportadora chegou a implantar uma operação regular Brasil–Peru, posteriormente descontinuada diante dos elevados custos, dos longos tempos de trânsito e dos entraves burocráticos.
Para Antonio Luiz Leite, presidente da FuMTran, essa experiência histórica ajuda a colocar o momento atual em perspectiva. “A ideia de conectar o interior brasileiro ao Pacífico existe há décadas e iniciativas anteriores já mostravam o potencial dessa integração. Também deixaram uma lição importante: abrir uma estrada não é suficiente. Para um corredor internacional funcionar, toda a cadeia precisa oferecer infraestrutura, segurança, procedimentos de fronteira eficientes e previsibilidade para quem transporta”, afirma.
Esse ainda é um dos principais desafios da rota. Embora a ponte esteja próxima da conclusão, o Centro Integrado de Controle de Fronteira, previsto para reunir os órgãos responsáveis pelos controles aduaneiros, migratórios, sanitários e de segurança em Porto Murtinho, ainda precisa avançar. Em setembro, a Receita Federal indicou que as estruturas necessárias à fiscalização poderiam levar a operação comercial plena do corredor para 2028. No Paraguai, por sua vez, seguem as obras da PY-15, incluindo a pavimentação de 52 quilômetros em direção a Pozo Hondo, na fronteira com a Argentina.
“O desafio agora muda de escala. A ponte conecta dois países, mas a carga terá de percorrer quatro. Se houver demora na aduana, incompatibilidade de procedimentos ou falta de infraestrutura em algum ponto, o ganho conquistado nos demais trechos pode ser perdido. A Rota Bioceânica precisa funcionar como um único corredor logístico, mesmo atravessando diferentes territórios e sistemas”, analisa Leite.